Imortalizada na voz de Milton Nascimento, no princípio Beatriz era pra ser Agnes, equilibrista d'O Grande Circo Místico, poema surrealista de Jorge de Lima que inspirou álbum e espetáculo homônimos musicados por Edu Lobo e Chico Buarque.
Congelado no desértico inferno rimário de Agnes, Chico buscou inspiração Divina na Comédia de Dante. Na alegoria épica florentina, a musa Beatriz encorajava o Dante lírico em sua jornada rumo ao Paraíso.
Ao contrário de Agnes, fictícia na versão surreal do Circo Knie, Beatriz teve vida terrena antes de conquistar o papel de musa lírica: Beatrice Portinari é tida como grande amor cortês de Alighieri. Poucas vezes se viram na curtíssima temporada da moça. Será que era triste? Dante jamais pôde entrar na sua vida, mas inspirou pinturas e honrou sua afeição platônica (loucura?) também na obra Vita Nuova.
Na Beatriz renata após 7 séculos celeste (etérea?), Chico e Edu unem poesia, melodia e harmonia sublimes para ensinar a não andar com os pés no “chão.” O vocábulo coincide com a nota mais grave da canção. Já o “céu,” em que projetam a musa, ressoa três vezes, sempre na nota mais alta. Gênios humildes, atribuem ao acaso tão improvável cenário. Será que é o contrário?
Na espetacular obra musical, a musa Beatriz, de quem pouco se sabe e muito se idealiza e indaga, se faz personagem-atriz para habitar o imaginário do eu lírico, que sonha em conhecer a verdade (ou será mentira?), a intimidade e a vida inalcançáveis da estrela.
No plural, “estrelas” encerra cada um dos três cânticos da Divina Comédia; analogamente, o verso final das três estrofes da canção, à exceção do interlúdio que (re)nomeia a musa titular pela única vez, termina em “sua vida,” referindo-se à vida da estrela, da musa, da levadora para sempre, da quiromante Beatriz.
A trilha sonora lançada em 1983 trazia uma “vida da atriz” a mais, em seguida a “Será que é divina.” Certa ocasião, Milton profeticamente trocou justamente essa palavra que, anos depois, Chico ousaria propor substituir para dar nova rima e ainda maior profundidade e sonoridade ao poema, refraseando a quiçá divina trajetória da atriz como “sina.”
Olha, Edu assinou embaixo, e assim fomos felizes para sempre, sem perigo mas sempre por um triz.
